Exibido na Mostra Aurora da Mostra de Cinema de Tiradentes e estrelado por Danilo Andrade, Antônio Pitanga, Verônica Gomes e Eliane Correia, o filme adota uma abordagem estético-contemplativa sobre pertencimento, perda e deslocamento.
A direção de fotografia de Renato Ogata é o grande destaque da obra. O uso marcante de enquadramentos rigorosos, exploração da paisagem (do litoral afetado às regiões montanhosas) e fortes contrastes entre luzes e sombras geram quadros visualmente marcantes e poéticos.
O longa toca em uma das feridas socioambientais mais dolorosas do Brasil recente — as consequências humanas, territoriais e culturais dos crimes ambientais provocados por mineradoras. Ao priorizar a memória e a sensação de deslocamento dos atingidos em vez do mero sensacionalismo, a premissa carrega peso crítico inquestionável.
A inclusão de ícones como Antônio Pitanga e a entrega do elenco principal trazem gravidade e dignidade aos papéis. A presença cênica dos atores sustenta a atmosfera de luto e resistência que o filme busca construir.
A ambientação sonora retrata com eficiência a presença do rio e a subsequente transformação silenciosa da paisagem, ajudando a traduzir o isolamento das populações afetadas.
Um dos aspectos mais criticados da obra é a construção do roteiro. As falas dos personagens frequentemente soam como declamações poéticas ou discursos explicativos voltados para o espectador, em vez de interações orgânicas. Essa solenidade constante distancia o público da realidade material do drama.
Com aproximadamente 2h30 (150 minutos) de duração, o filme sofre com quebras de ritmo frequentes. A transição entre os núcleos narrativos e as histórias individuais prejudica a fluidez, fazendo com que a experiência se torne excessivamente arrastada.
A busca por planos esteticamente perfeitos e contemplativos acaba, por vezes, enrijecendo a narrativa. O rigor formal do diretor sobrepõe-se à urgência humana do conflito, resultando em um distanciamento emocional que neutraliza o impacto dramático.
O filme transita entre o drama realista, o ensaio poético e o cinema performático sem consolidar uma identidade coesa, o que pode soar desconexo para parte do público.
Margeado
é uma obra marcada por intenções políticas nobres e um esmero estético notável
no cinema independente brasileiro. Diego Zon demonstra talento para compor
imagens poderosas, mas a opção por um tom operístico e diálogos excessivamente
literários cobra seu preço na capacidade do filme de comover.
É uma recomendação válida para espectadores interessados em
cinema autoral de ritmo lento e rigor visual, embora possa frustrar quem busca
uma narrativa mais visceral e orgânica sobre o tema.
De 11 a 14 de agosto, Margeado será exibido
no cinema do Sesc Ver-o-Peso, em Belém, no Pará; e, de 20 a 27 de agosto, fica
em cartaz em cinemas de diversas cidades do interior do Espírito Santo – Cine
Ritz Sul, em Cachoeiro de Itapemirim; Cine Gama, em Colatina; Cine Ritz Conceição,
em Linhares; Cine Ritz São Mateus, em São Mateus – e de Minas Gerais – Cine
Ritz Cataguases, em Cataguases; Cine Ritz Molevade, em João Molevade; e Cine
Ritz Mariana, em Mariana.
“É uma satisfação que Margeado seja lançado
em várias salas espalhadas pelo Brasil, inclusive nas cidades do interior,
algumas delas margeadas pelo rio Doce, que é um dos protagonistas do filme.
Que Margeado possa dialogar seus sentimentos com as pessoas
dessas cidades, abrindo um espaço de reflexão sobre nós e os lugares onde
vivemos, sobre a nossa capacidade de criar vínculos, nos relacionar e encontrar
caminhos diante das circunstâncias que constantemente nos impõem recomeçar”,
comenta o diretor.
Rodado nas regiões norte e sul do Espírito Santo, a trama
aborda a migração de um povoado diante do rompimento de uma barragem de lama
tóxica. A história se situa em uma vila pesqueira acometida por um problema que
impossibilita a manutenção de costumes construídos por várias gerações. Na
continuidade, a narrativa se desloca do litoral para comunidades de regiões
montanhosas do interior.
A produção do filme foi realizada com recursos da Secretaria
de Cultura do Estado do Espírito Santo, via Fundo de Cultura do Estado do
Espírito Santo (Funcultura), e do Fundo Setorial do Audiovisual/Ancine (FSA),
por meio do coinvestimento Arranjos Regionais. A distribuição do filme conta
com o apoio da Secretaria da Cultura do Espírito Santo, por meio do incentivo
da Lei Paulo Gustavo, do Ministério da Cultura – Governo Federal.
SERVIÇO
Margeado
Ficção, Drama, 150 minutos
Classificação 14 anos
São Paulo (SP) 1 e 2 de agosto
Cine Bijou
SINOPSE
O rio não é o mesmo. Tornou-se lama contaminada. Moradores
de uma vila pesqueira enfrentam um futuro incerto após o rompimento da
barragem. Yara e Dingue retomam a vida, permanecem e derivam na memória do
lugar enquanto as águas correm as montanhas ante as forças indomáveis da
natureza.
ELENCO
Danilo Andrade
Verônica Gomes
Eliane Correia
Antônio Pitanga
Etien Khouri
FICHA TÉCNICA
Direção e Roteiro: Diego Zon
Produção: Djanira Bravo, Diego Zon, Ana Viegas
Direção de Fotografia: Renato Ogata
Direção de Arte: Djanira Bravo
Som Direto: Lucas Maffini
Figurino: Daniela Sgaria
Produção Executiva: Djanira Bravo, Myriam
Assis
Direção de Produção: Lucas de Lima
1ª Assistente de Direção: Carol Covre
Montagem: Diego Zon, Joana Baptista
Desenho de Som: Tiago Bello
Mixagem: Toco Cerqueira
Colorista: Luan Monteiro
Empresa Produtora: De Repente o Rio



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