By Raphael Ritchie: ¨DH Fest abre sexta edição com defesa da memória e pré-estreia de “Anistia 79”
Festival ocupa diferentes espaços de São Paulo com programação gratuita de cinema, música, teatro e debates sobre cultura, democracia e direitos humanos.
A sexta edição do DH Fest — Festival de Cultura e Direitos Humanos começou na noite desta quarta-feira, 29 de julho, no Cine Reserva Cultural, em São Paulo, com discursos em defesa da democracia e a exibição do documentário brasileiro “Anistia 79”, dirigido por Anita Leandro. Com o tema “Futuros em disputa: quem tem direito ao amanhã?”, o evento segue até 3 de agosto com uma programação inteiramente gratuita.
Promovido pelo Instituto Vladimir Herzog e pela Pardieiro Cultural, o festival reúne cinema, música, teatro e debates em diferentes espaços da capital paulista. A proposta desta edição parte da ideia de que o direito ao futuro não é distribuído de maneira igualitária: enquanto algumas pessoas herdam terras, direitos e oportunidades, outras precisam lutar diariamente para garantir a própria existência e a possibilidade de imaginar o amanhã.
Durante a cerimônia de abertura, o diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sottili, afirmou que as disputas políticas contemporâneas também envolvem a memória, as narrativas e a capacidade de imaginar outros futuros.
“Precisamos voltar a desejar e sonhar com o futuro. A arte cria horizontes, cria consciência e reflexão. A arte expressa inquietações, inspira sonhos e entrega leituras da sociedade e do tempo”, declarou.
Segundo Sottili, a escolha de “Anistia 79” para abrir o festival reforça a necessidade de compreender o passado como parte da defesa das instituições democráticas. “Uma sociedade incapaz de olhar para a sua história corre o risco de repetir as violências que marcaram o seu passado”, disse. Para ele, o documentário lembra que a democracia precisa ser “permanentemente construída, defendida e ampliada”.
O diretor também recordou a relação de Vladimir Herzog com diferentes manifestações artísticas. Além do trabalho como jornalista, Herzog teve contato com o teatro, admirava a obra do dramaturgo Bertolt Brecht e dirigiu o curta-metragem “Marimbás”. O filme deu nome ao prêmio entregue pelo DH Fest a personalidades cujas trajetórias dialogam com os direitos humanos. Neste ano, o homenageado será o rapper, escritor e produtor Emicida, durante a cerimônia de encerramento, em 3 de agosto.
Os curadores Carolina Vilaverde, Francisco César Filho e Leandro Pardi também apresentaram os principais eixos da programação. A seleção cinematográfica reúne produções brasileiras recentes sobre memória, povos originários, comunidades LGBTQIA+, juventudes periféricas, justiça climática, educação e democracia. Além do Reserva Cultural, as sessões passam pelo Centro Cultural São Paulo, pelo Espaço Petrobras de Cinema e por outros espaços culturais da cidade.
A programação inclui ainda uma conversa com os escritores Jeferson Tenório e Mariana Salomão Carrara, o espetáculo “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, inspirado na obra de Ailton Krenak, e o Baile Futurista, que ocupará o Largo da Misericórdia no domingo, 2 de agosto. O evento musical terá apresentações do coletivo Calefação Tropicaos, da fanfarra As Obscênicas e de Tom Zé.
Imagens recuperadas depois de quase meio século
A abertura foi encerrada com a apresentação da equipe de “Anistia 79”. Produzido por Alice de Andrade e Maria Flor Brazil, o documentário utiliza imagens registradas durante a Conferência Internacional pela Anistia e pelas Liberdades Democráticas no Brasil, realizada em Roma, em junho de 1979.
O material foi filmado em 16 milímetros pelo então exilado Hamilton Lopes dos Santos, que alugou uma câmera e reuniu uma pequena equipe para documentar o encontro. Os registros ficaram guardados durante quase 50 anos e foram rec…
[20:24, 03/08/2026] Thelma: Existe uma diferença enorme entre olhar para a História e enxergá-la pelos olhos de quem estava dentro dela.
Aqui, as imagens não aparecem como um complemento para o discurso de especialistas ou como uma lembrança distante organizada décadas depois. Elas foram registradas pelos próprios exilados brasileiros durante a Conferência Internacional pela Anistia, em Roma, e carregam uma espontaneidade que nenhuma reconstituição seria capaz de reproduzir. Os enquadramentos são imperfeitos, as falas surgem atravessadas pelo momento, e é justamente essa falta de acabamento que lhes dá tanto valor.
O acervo, porém, não se sustenta apenas pela importância histórica. O trabalho de montagem é o que permite que essas imagens deixem de existir apenas como memória preservada e passem a dialogar com o presente. Quase cinquenta anos depois, a palavra “anistia” chega ao espectador cercada por um significado muito diferente daquele que mobilizava aquelas pessoas em 1979.
O filme não precisa estabelecer essa comparação de maneira direta porque ela acontece naturalmente. Basta acompanhar aqueles rostos discutindo o futuro do país para perceber como uma mesma palavra pode atravessar décadas carregando disputas completamente distintas.
Essa escolha também impede que o documentário se transforme em uma simples coleção de arquivos restaurados. Existe uma preocupação em construir uma experiência que preserve o contexto daqueles registros sem interromper constantemente seu fluxo para explicar cada acontecimento.
Quando confia nas imagens, nos discursos e nos silêncios, o resultado é muito mais interessante do que quando a condução se torna excessivamente organizada e o ritmo perde parte da sua intensidade.
Anistia 79 desperta menos interesse por apresentar novas informações do que pela maneira como reorganiza um material conhecido. Há algo muito potente em observar pessoas registrando o próprio tempo sem imaginar que aquelas imagens ainda estariam sendo revisitadas quase meio século depois. Ao mesmo tempo, nem sempre a construção narrativa acompanha o peso desse material, e alguns trechos prolongam uma experiência que teria mais impacto se fosse um pouco mais contida.
Seu maior mérito acaba sendo lembrar que preservar a memória também passa por preservar quem teve a chance de registrá-la. O documento permanece. O cinema, em alguns momentos, oscila. E é justamente nessa distância entre as duas coisas que o filme encontra seus limites¨.




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