Rapper recebeu o Prêmio Marimbás de Cultura e Direitos Humanos em cerimônia marcada por poesia, depoimentos e encontros entre diferentes gerações da cultura brasileira.
A sexta edição do DH Fest — Festival de Cultura e Direitos Humanos chegou ao fim na noite desta segunda-feira, 3 de agosto, com uma homenagem ao rapper, escritor e produtor cultural Emicida.
Realizada no Espaço Petrobras de Cinema, em São Paulo, a cerimônia de encerramento reuniu artistas, escritores e representantes do Instituto Vladimir Herzog para a entrega da segunda edição do Prêmio Marimbás de Cultura e Direitos Humanos.
Com o tema “Futuros em disputa: quem tem direito ao amanhã?”, o festival promoveu seis dias de atividades gratuitas em diferentes espaços da capital paulista. A programação reuniu cinema, música, teatro e debates, propondo uma reflexão sobre o papel da cultura na defesa da dignidade humana e dos valores democráticos.
Durante o encerramento, a organização retomou o manifesto que orientou a edição deste ano. A proposta foi pensar o sonho não como uma atitude ingênua, mas como um exercício político e coletivo de imaginação e coragem diante das desigualdades que limitam o direito de determinadas parcelas da população de construir o próprio futuro.
A cerimônia também relembrou o Baile Futurista, realizado no domingo no Largo da Misericórdia, no centro de São Paulo. Com apresentações do coletivo Calefação Tropicaos, da fanfarra As Obscênicas e de Tom Zé, o evento reuniu milhares de pessoas e transformou a ocupação da rua em uma demonstração prática do futuro defendido pelo festival: mais coletivo, diverso e acessível.
Ao abrir a homenagem principal da noite, a apresentadora destacou a trajetória de Emicida como rapper, escritor, compositor, produtor, apresentador e empreendedor cultural. Em quase duas décadas de carreira, o artista fez da palavra uma ferramenta de luta, memória e transformação, ampliando o espaço do rap como expressão artística, cultural e política no Brasil.
Um trecho da música “Milionário do Sonho” foi utilizado para relacionar a obra do homenageado ao tema do festival. A ideia de que existe “sempre um mundo por fazer” serviu como ponto de partida para refletir sobre o direito de imaginar um amanhã que não apenas reproduza o presente, mas seja construído coletivamente e tenha a identidade daqueles que foram historicamente afastados dos espaços de decisão.
Cultura contra o silêncio
O diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sottili, afirmou que Emicida está entre os artistas que conseguiram retratar e, ao mesmo tempo, transformar o próprio tempo. Segundo ele, a obra do rapper demonstra que a cultura não se limita ao entretenimento, pois também pode carregar conhecimento, memória, denúncia e possibilidades de futuro.
“Ao longo de sua trajetória, Emicida fez da palavra um instrumento de construção. Construiu pontes entre gerações, levou a literatura para o rap e o rap para o centro do debate público”, declarou.
Sottili ressaltou que os direitos humanos também são construídos por meio das manifestações culturais. Isso acontece, segundo ele, quando uma música amplia a percepção sobre o mundo, uma história permite reconhecer a humanidade do outro ou um artista convida o público a imaginar um país mais justo.
“O trabalho e a trajetória do Emicida nos fazem acreditar que a cultura é uma forma de enfrentar o silêncio, desafiar as injustiças e afirmar a dignidade humana”, afirmou.
Para o diretor, a esperança presente no trabalho do rapper não deve ser confundida com ingenuidade, mas compreendida como uma escolha construída diariamente. Essa perspectiva estaria diretamente ligada ao tema do festival, sobretudo por defender que o futuro pode ser transformado pelas decisões tomadas no presente.
“Em tempos em que tantas vozes tentam nos convencer de que não há alternativas, sua arte insiste em afirmar que o futuro também pode ser um gesto coletivo de imaginação, solidariedade e, sobretudo, coragem”, completou.
O Prêmio Marimbás reconhece artistas e personalidades cujas trajetórias relacionam cultura e direitos humanos. Seu nome faz referência a “Marimbás”, único filme dirigido pelo jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura militar em 1975.
Palavra, ancestralidade e sobrevivência
A poeta e escritora Mel Duarte deu continuidade à cerimônia com uma apresentação que reuniu poesia falada, ancestralidade e referências às forças femininas que orientam sua trajetória. Ao pedir licença para ocupar o palco, ela evocou quem veio antes e também aqueles que ainda virão.
Em seu discurso, a artista relacionou diretamente cultura e direitos humanos, especialmente em um país marcado por profundas desigualdades. Segundo ela, muitas mentes criativas surgidas nas periferias são desperdiçadas porque seus direitos básicos não são garantidos.
“De todo esse descaso emergem movimentos como o hip-hop, que salvam vidas todos os dias”, afirmou.
Mel destacou o rap como uma ferramenta capaz de estimular o pensamento crítico, construir argumentos e apresentar novas possibilidades de existência. Ao falar sobre sua relação com Emicida, recordou que acompanha a trajetória do artista desde 2010, quando comprou um CD diretamente de suas mãos.
A poeta afirmou que o trabalho do rapper ajudou muitas pessoas a encontrar na própria voz uma estratégia de sobrevivência. Também agradeceu ao homenageado por contribuir para que a produção intelectual e artística negra seja reconhecida como parte do patrimônio cultural brasileiro.
“Quem possui resiliência carrega o afeto como estratégia e sabe que falar é criar novos caminhos”, declarou durante sua performance.
A homenagem contou ainda com um vídeo enviado pelo pastor, ator e ativista dos direitos humanos Henrique Vieira. Em sua mensagem, ele afirmou que a trajetória de Emicida possui um compromisso efetivo, afetivo, ético e político com a plenitude da vida.
Segundo Vieira, as letras do rapper combinam ancestralidade, crítica antirracista, acolhimento e enfrentamento às estruturas de desigualdade. “Suas rimas batem forte no sistema e, ao mesmo tempo, promovem uma cultura de paz e direitos humanos”, disse.
Uma história construída pelo rap
Um dos momentos mais emocionantes da cerimônia foi a participação de Rashid, amigo de longa data de Emicida e companheiro dos primeiros anos de atuação no rap. Em um texto escrito especialmente para a ocasião, o artista relembrou o período em que ambos circulavam por batalhas de rima, eventos de periferia, pátios de escolas e pequenos palcos de São Paulo.
Rashid contou que encontrou no rap não apenas uma expressão artística, mas também uma linguagem capaz de preencher silêncios e criar vínculos. Ao conhecer Emicida, disse ter reconhecido nele a materialização de tudo aquilo que imaginava que o movimento hip-hop poderia representar.
“Esse meu irmão é uma força da natureza, mas de um jeito próprio. Ele chegou à idade adulta e não parou de crescer. É um cientista de si e do todo”, afirmou.
O rapper relembrou dificuldades enfrentadas no início da carreira, como noites esperando o metrô voltar a funcionar, abordagens policiais durante a madrugada e apresentações cujo cachê mal cobria os gastos da viagem. Em uma das histórias, contou que ele e Emicida encontraram R$ 50 perto de uma barraca de pastel. Mesmo com fome, decidiram gastar o dinheiro em cadernos e canetas.
Rashid também destacou a capacidade de Emicida de transformar a própria ascensão em uma conquista coletiva. “Quando você diz ‘a rua é nós’, só quem coloca o ‘eu’ na frente não consegue se perceber na grandeza desse ‘nós’”, declarou.
Para ele, a influência de Emicida sobre a cultura brasileira só pode ser compreendida plenamente por aqueles que acompanharam de perto sua caminhada. “Eu estava lá para ouvir o que foi dito e hoje estou aqui para ver o que foi feito”, concluiu.
O poeta Sérgio Vaz participou por meio de uma mensagem gravada. Ele recordou o primeiro encontro com Emicida, quando o rapper ainda vendia seus próprios discos nas filas dos eventos, e afirmou que já era possível reconhecer naquele momento a determinação de alguém que acreditava no próprio sonho.
Vaz comparou o impacto do artista ao gesto de acender uma vela, que primeiro ilumina quem a carrega e depois alcança aqueles que estão ao redor. Para o poeta, a homenagem reconhece não apenas a música de Emicida, mas também sua atuação nos campos da literatura, da política e da formação de novas gerações.
A cerimônia teve ainda a participação de Alaíde Costa, que falou sobre a colaboração com Emicida e sobre o reconhecimento conquistado depois de décadas de carreira. A presença da cantora reforçou um dos principais sentidos da noite: promover encontros entre artistas de diferentes gerações, territórios e tradições da cultura brasileira.
“A gente precisa contar a nossa história”
Ao receber o Prêmio Marimbás, Emicida afirmou sentir-se profundamente abençoado por ter nascido no Brasil e fazer parte de sua cultura. Ao mesmo tempo, criticou aquilo que definiu como uma “cultura de desperdício de pessoas”, responsável por impedir que muitos talentos tenham suas capacidades reconhecidas.
“Essa cultura de desperdício de pessoas precisa ser interrompida com radicalidade”, declarou.
O rapper afirmou que sua trajetória foi construída a partir do esforço de oferecer o melhor a cada pessoa que encontrou pelo caminho. Para ele, dar continuidade à grandeza da cultura brasileira é uma responsabilidade compartilhada por todos aqueles que trabalham com arte.
Emicida situou o hip-hop na fronteira entre a criação artística e a luta pelos direitos humanos. Segundo o artista, a cultura hip-hop só completa seu sentido quando consegue produzir dignidade para as pessoas que fazem parte dela.
Essa luta, explicou, acontece por meio da poesia, do break, dos DJs, do grafite e do conhecimento. Mais do que manifestações artísticas isoladas, esses elementos representam um conjunto de saberes africanos, indígenas, insurgentes e tecnológicos.
“É, acima de qualquer outra coisa, uma maneira de existir em um mundo que não permite que a nossa invisibilidade continue”, afirmou. “A gente precisa contar a nossa história.”
O homenageado também relacionou o prêmio à memória de Vladimir Herzog e a todas as pessoas que levantaram suas vozes contra a opressão e a violência. Para Emicida, aqueles que atuaram em defesa da dignidade humana, independentemente da época em que viveram, fazem parte de uma mesma trajetória coletiva.
Ao encerrar o discurso, agradeceu ao Instituto Vladimir Herzog, aos artistas que participaram da cerimônia e aos companheiros que estiveram ao seu lado durante a caminhada.
“Estamos no caminho, um passinho de cada vez, lutando para construir uma realidade social que esteja à altura da arte que este país produz”, concluiu.
A entrega do prêmio encerrou uma edição que encontrou na obra de Emicida a síntese de seu tema. Ao longo dos seis dias, o DH Fest discutiu diferentes formas de disputar o amanhã. Na última noite, essa discussão ganhou o formato de uma homenagem a quem fez da palavra um instrumento para preservar a memória, combater o apagamento e abrir espaço para que outras pessoas também possam imaginar e construir o próprio futuro.





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